Eu, opressor.

 

Após ler sobre a atrocidade que aconteceu no Rio, fiquei muito inquieto. Fiquei triste com a situação. Revoltado. Eu me lembrei de uma passagem da bíblia: no sermão da montanha, Jesus diz aos espectadores:

“Eles dizem: Não adultere. Porém, eu digo que quem desejar uma mulher em cobiça, já adulterou em seu coração”.

Ao pensar no crime no rio, percebo três pessoas: a garota, os estupradores e o espectador. Muitas mulheres que conheço se identificam com a garota. Vivemos numa sociedade cruel, e ser mulher significa ser assediada muitas vezes. E logo percebo que não tenho como me identificar com a garota. Infelizmente.

Vem-me a segunda pessoa, os estupradores. É triste ver na sociedade gente que faz isso. É revoltante. É assustador, como o sexo domina a mente das pessoas e as leva a níveis tão brutais a troco de nada. Não me identifico com essas pessoas, a princípio.

Por fim, me vem a terceira pessoa, o espectador. E a esse, cabe julgar os cruéis e sentir pena das mulheres. Esses não são vítimas e não estupraram. Mas o grau de conivência com a violência é tão grande em algumas pessoas, que não dá pra separar. “se ela estivesse em casa lavando prato, nada disso aconteceria”. Essa visão absurda me faz pensar que muitos espectadores são tão cruéis quando os estupradores.

Então vou promover uma nova divisão entre os espectadores. Os que não se importam; os que não fazem nada, e por fim os que se incomodam tanto que decidiram abraçar as mulheres. Os primeiros são cúmplices do crime, e dispenso explicar. O segundo parece bom, mas é tão ruim quanto o primeiro. E o terceiro é para todos os efeitos uma mulher, um feminista, ou um aspirante a feminista.

Onde eu estou? Contextualizando a mensagem de Jesus, seria algo assim: “Não estupre, é crime. Mas eu digo que quem objetificar a mulher, já a estuprou no seu coração.” Pareceu absurdo quando pensei, porque sou homem machista. Mas aposto que mais de 90% das mulheres concordariam com esse pensamento.

Não com a mesma frequência de quando eu era um adolescente, ou com a mesma curiosidade/vontade. Mas eu vejo pornô. E eu participo de conversas sobre a “bunda dela”, sobre como deve ser “transar com aquela”, ou essas coisas que deveriam ser absurdas. Porque são normais? E ao pensar nisso, eu percebo que eu sou opressor. Eu sou a parte cruel da sociedade machista que fomenta esse tipo de comportamento, e isso me entristece mais do que o fato de uma garota ser estuprada por 33 homens. Porque, nesse momento, eu me sinto estuprador. E me arrependo de tudo isso.

Quero mudar de lado. Não quero mais objetificar pessoas, ou transformá-las em uma parte do corpo. Peço perdão a você, mulher. E peço aos meus amigos que me ajudem a ser uma pessoa melhor. Tenho aprendido a ser mais feminista a cada dia, mas ainda não feminista o suficiente.

É pau, é pedra

Hoje, lendo alguns posts do facebook, eu lembrei dessa cena de A Vida de Brian, onde acontece um apedrejamento. Tenho visto dessas cenas com muita frequência, mas sem a comédia, sem o grupo Monty Python, e sem as mulheres de barba, o que torna os fatos bem menos agradáveis.

Mas há esses apedrejamentos. Coisa interessante é que tem gente que só traz vítimas para jogarmos pedras, e vivem buscando e anunciando mais apedrejamentos. Imagino que esse era o hobby das pessoas na época de Brian, principalmente mulheres, e presumo ser o hobby de muita gente hoje em dia. Caçar erros de Dilma, de Neymar, de gente que já morreu, de gente que malmente é gente, mas que tá na lista de apedrejamento.

Imagino que matar o tédio com um ritual de apedrejamento de vez em quando não é tão mal assim, por isso é passível de entendimento. Mas viver apedrejando é pesado. Nessa hora fico pensando no vendedor de pedras e barbas, que fica no caminho e percebeu o mercado promissor.

Hoje eu vi o povo jogando pedras na Dilma Rouseff, porque ela falava sobre a bíblia em entrevista com o Jô. É interessante que as pessoas já estão tão carregadas de ódio da mulher que é a presidenta, que tudo o que ela fala é abominável e merece receber pedras por isso. E olhe que do que ela disse, eu nem vi os absurdos. Vi uma visão limitada de entendimento da bíblia, pois é nítido que ela não é muito familiarizada com a ferramenta, nem é uma teóloga, pra falar com propriedade. Mas… não importa, joga uma pedra.

Fico pensando… quando lemos a história de Jesus, onde ele recebe os apedrejadores com a mulher e a lei na ponta da língua, acusando-a de adultério. “Ela merece morrer”, “é a lei quem diz”, eles se escondiam atrás da lei, e as pedras estavam nas mãos, o ódio no coração porque todos podiam errar, mas não aquela mulher. Não ela. O entretenimento deles era aquele: pedras. Até a morte.

E nós pensamos: “somos como a mulher que Jesus salvou dos acusadores”… Eu diria que somos como os acusadores, que Jesus está tentando salvar da vontade de apedrejar. Mas só pra constar: Ele também não nos condena, nós podemos ir em paz, e façamos o favor de parar com os discursos acusando as pessoas, principalmente de nossa presidenta, que precisa mais de oração do que de ódio.

Grato.

Sobre a Vileza

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

Uma amiga postou esse poema no seu facebook esses dias, e ele entrou na minha cabeça, criou uma toca e não sai mais. E qualquer coisa que eu escreva sobre a vileza do homem é muito pequeno perto dele. É isso.

Jardinagem

Imagino duas flores discutindo sobre a mudança de humor do jardineiro. A primeira coisa que uma delas diria seria: “ele está precisando de água pra melhorar o astral.” Enquanto a outra diria: “talvez ele precise de um dia de sol, num lugar bem úmido e tranquilo”.

A primeira jogaria água nele e esperaria o sorriso em resposta. A segunda o levaria à praia, ele melhoraria o humor e elas chegariam à conclusão de que a segunda estava correta. Tudo o que o jardineiro queria eram férias, mas as flores só entendiam de sol e água.

É uma tendência que as flores pensem que o jardineiro é uma flor evoluída, ou uma grande planta que tem necessidades comuns. Mas imagine alguém tentar explicar pra uma flor que o jardineiro é um humano que tem um polegar opositor e tem colesterol alto, apesar de magro. Antes, acho que cabe às flores entender que o jardineiro é capaz de plantá-las e de cuidar delas.

Nem todas as flores naquele jardim acreditam no jardineiro, e acham que é natural todo o processo. “A natureza está aí, e o que me rega é a chuva, que cai sempre na mesma hora marcada, e a luz que sempre vem na hora certa, e sempre tem essa coisa de terra boa e rica em nutrientes, mas tudo isso é natural”, dizia a flor inteligente.

As boas flores não entendiam porque o jardineiro também alimentava a flor ruim, mas ele regava todas, e todas desfrutavam do seu jardim. Um dia uma delas resolveu se rebelar, e começou a gritar com as outras dizendo: “esse jardineiro é um imbecil, acordei hoje com essa marca de uma lagarta, que comeu um pedaço de minha pétala. Jardineiro idiota, que não consegue cuidar de mim, e vocês acham que ele cuida de vocês?!?!”

A flor inteligente pôs logo a responder: “por isso que digo, Gazânia, esse jardineiro é um mito. Não existe, e se ele existe, quem o plantou? Quem dá água e sol a ele?” Outras flores começaram a se espelhar na flor inteligente, e resolveram criar a sociedade das flores independentes. Eram regadas e cuidadas pelo mesmo jardineiro, mas só não aceitavam ele como real.

Já o jardineiro, ouvia suas conversas, se alegrava com umas, se entristecia com outras, amava todas. Sabia que elas eram só flores, e pensavam como tal, por isso as perdoava sempre enquanto continuassem sendo flores.

Cidadania

Política no Brasil é um daqueles assuntos que quanto mais tempo passo conversando sobre isso, mais me entristeço. Quando penso sobre isso, começo a levantar os absurdos que fazem parte desse assunto.

Gente que rouba e continua se elegendo e, pior, ganha. Gente que é preso, mas volta a se envolver depois de solto, ou mesmo antes de ser solto. Políticos eleitos porque são parentes de políticos, e somente por isso. Obrigatoriedade e comercio de votos, religião misturada com decisões políticas. Partidos!!!

Em O Poder do Hábito, Charles Duhigg fala sobre uma guarda florestal num parque que tinha muitos gambás. Ela costumava carregar o cheiro dos animais nela, e por ter se tornado um hábito, não percebia mesmo sendo intenso. Os homens não a achavam atraente porque ela fedia demais, e a coitada não fazia ideia, porque ninguém a criticava.

Fico pensando em nós brasileiros. Formados sob essa estrutura política problemática, aprendemos desde sempre a aceitar esses absurdos. Mal sabemos o quanto estamos mergulhados nessa corrupção. E me pego nas conversas sobre política como se entendêssemos realmente o que acontece lá dentro.

A verdade é cruel: Aécio, Dilma, Marina, Eduardo. Você pode colocar o líder que quiser dentro dessa faixa de presidente, enquanto continuarmos negligenciando a política, o país continuará do mesmo jeito. Porque no fim das contas, a nação não é o grupo de políticos.

Precisamos aprender a valorizar o Brasil fora da Copa. Comece parando de jogar lixo na rua, e protegendo a rua dos que fazem isso. Aprenda a amar a sua nação, e defender sua terra. Creio que por aí a gente começa a deixar de ser gambá, e quem sabe um dia tiremos não só os gambás do palácio, mas com eles o cheiro.

Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Hino à Bandeira (trecho)

Pois é…

A candidata Marina, depois de ser eliminada, deu uma entrevista com mais uma das suas falácias moralistas:

“Fizemos o debate, e não o embate.”

É, Marina! Demorou para perceber que a platéia gosta é de pé na porta e tapa na cara. E por isso você foi eliminada.

No próximo episódio, veremos como os Brothers restantes na casa se enfrentarão para assumir a liderança, e por fim, o prêmio da competição: nada mais nada menos do que o título de presidente da república.

Foi mais ou menos assim que me senti quando acordei hoje pela manhã. Não liguei para o 0800 da globo, mas participei de mais um reality show, e dessa vez organizado pelo governo. Tudo seria tão mais simples se as pessoas entendessem os planos de governo de cada candidato.

Admiro a Marina, e já votei nela duas vezes, e votarei quantas achar necessário.

Pois é…

Em um país governado pela TV, nada melhor do que um presidente eleito por um reality show.

Vaidade de Vaidades

            Relendo Eclesiastes, me peguei num pensamento, e apesar de tê-lo lido mais de cinco vezes nunca me prendi tanto à pergunta. O que é vaidade, afinal? Nos meus pensamentos superficiais logo veio uma resposta simples: efemeridade. Como se ela fosse tudo o que não é eterno.

            Kivitz, em “O livro mais mal humorado da bíblia”, descreve três aplicações básicas para a vaidade eclesiástica: volatilidade, futilidade e incompreensibilidade.

            A volatilidade porque a Salomão se refere a coisas efêmeras. São, e logo foram, deixando de ser e caindo no esquecimento como se nunca tivessem sido. Enquanto a futilidade aplica-se aos fatos fúteis aos quais não vale à pena refletir. Como John Nash e sua busca por uma fórmula matemática que traduzisse o comportamento dos pombos [wth!]. Por último, temos a incompreensibilidade, que são os fatos sobre os quais por mais que valha à pena pensar, todo pensamento é vão. E aqui temos os inúmeros exemplos com os quais nos deparamos rotineiramente e não entendemos.

            O que mais me prende nisso tudo é a expressão Vaidade de vaidades, que Salomão escreve no começo do livro, sobre o qual Kivitz me conduz ao pensamento de superlativo. Como se o pensador dissesse: O cúmulo da vaidade.

            Logo depois, na mesma frase, Salomão escreve que a vida não tem sentido. Ao primeiro olhar eu me assustei: “Será que o sábio, inteligente, experiente e incrível Salomão entende que a vida não vale à pena?” Mas o que ele escreve é o que se disse: A vida não pode ser explicada, sendo efêmera e incompreensível.

            Percebi nesse momento que sendo a vida e tudo o que lhe é natural, vaidade. A vaidade salomônica não é um erro de conduta, mas é a normalidade. E o normal é enfadonho e sem sentido.

Caminho Eterno (parte 3)

Então disse o SENHOR a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem.
Êxodo 14:15

Jamais passaria pela mente de Moisés que o mar era um caminho possível. Aliás, isso jamais passou pela mente de qualquer pessoa normal. Eles estavam encurralados pelos exércitos egipcios, que corriam freneticamente e alcançariam os israelitas. E o povo estava desesperado, o líder, numa ação cheia de fé, declara: “Veremos Deus nos livrando. Ele lutará por nós…”

O mar era até então o carrasco do povo. Eles foram afugentados para lá e encurralados na sua margem. O mar impedia o povo de fugir. Aquela imensidão de água era a marca do limite da vida dos israelitas, que viam ali seus corpos sendo traspassados pelas armas egipcias. Mas Deus transformaria o terror em solução, o desastre em glória, e o Mar Vermelho, carrasco dos egípcios, seria eternizado numa das histórias mais contadas do mundo.

Mais um caminho misterioso. Nenhum homem sensato pensaria que aquele caminho seria o melhor caminho, mas estava lá, diante dos hebreus, que obedientemente marcharam. Não que fosse uma questão de obediência, mas de sobrevivência, mas o que importa é que eles trilharam por esse caminho eterno, e tiveram um momento de epifania presenciando algo inimaginável.

Sensibilidade e Coragem; diga-se, Espiritualidade e Fé. Deus está sempre nos dando oportunidades para trilhar o caminho eterno. Permita-se.

Caminho Eterno (parte 2)

Vê se em mim há algum caminho de perversidade, E guia-me pelo caminho eterno.

Davi (Salmos 139:24)

Deus fez tudo no tempo perfeito, e também colocou no coração dos homens a ideia da eternidade, para que eles não descubram as obras divinas do princípio ao fim.

Salomão (Eclesiastes 3:11)

O adjetivo “eterno” na tradução da palavra utilizada por Davi no Salmo 139, e a palavra “eternidade” da tradução da expressão de Salomão em Eclesiastes 3 são a mesma palavra originalmente: עולם – pelo Google Tradutor é apresentada como “Mundo, universo, existência ou eternidade”.

As palavras apresentadas promovem a ideia de incerteza e entendimento vazio, e por essa linha de pensamento alguns estudiosos traduzem essa palavra como “mistério”. E achei essa versão a ideal para a abordagem que segue.

Ele pede a Deus que as decisões que ele tomasse que promoveriam consequências ruins (caminho mau) fossem avaliadas e contornadas de modo que ele seguisse por um caminho que ele não conhecia, mas que, se Deus o guiasse, ele sabia que seria algo muito melhor do que o que ele esperava.

Quando eu era pequeno, as pessoas costumavam usar o tradicional “abra a mão e feche os olhos”. Se confiássemos na pessoa, faríamos ansiosos para que nossas mãos fossem preenchidas com algo muito bom. Chocolates, doces, guloseimas ou qualquer presente que nos agradasse. Mas se não confiássemos, ficaríamos relutantes de abrir as mãos. Aliás, nem mesmo fecharíamos os olhos, com receio de sermos atacados enquanto estivéssemos indefesos.

O que entendo que Davi expressa nesse Salmo é algo similar a essa sensação de confiança. É como se ele pedisse a Deus: “feche meus olhos e guie-me por um caminho misterioso”. É se humilhar e perceber que suas decisões, por melhores que fossem, elas sempre seriam limitadas ao seu fútil entendimento. E ele sabia que Deus, o onisciente, costuma guiar o homem por caminhos misteriosos, provando que todo entendimento é pouco diante das infindáveis variáveis que promovem os resultados.

O que move nossas decisões? São emoções incompletas, de pessoas vazias e atordoadas por muitas incertezas da vida. Nós somos fruto de um contexto tão fugaz quanto nossas existências, tentando produzir eternidade sem nem mesmo saber como ela é. Mas Deus, que conhece com perfeição a eternidade, sabe quanto há dela em tudo o que nos cerca. E pode nos ensinar a pisar no caminho eterno/misterioso, mas para isso precisamos fechar nossos olhos, estender nossas mãos abertas, e esperar. Ele, no tempo e no modo perfeitos, nos fará andar.

Buraco Negro da Alma

Lulu era uma garota muito amável. Essa é a melhor descrição que tenho dela, por este ser o maior desejo que ela tinha: ser amada. E a menina se esforçava por esse objetivo. Apesar de ser agradável, carinhosa e dócil, ela nunca se sentia amada o suficiente. Com seu sorriso lindo, brilhante e cativante conquistava qualquer pessoa fácil, ou quase isso.

Ela conheceu Maria, uma garota muito esperta, inteligente e amante. Não era muito amável, antes, era desagradável, rude, fria, às vezes perversa e costumava contrariar as pessoas. Maria costumava ser fechada, chata, poucas palavras e evitava as pessoas. Quando Lulu a viu, desejou ser sua amiga. Ela tinha todos, mas isso era pouco. Sempre era pouco.

Lulu começou a gostar de tudo o que Maria gostava. As músicas desagradáveis, as comidas sem gosto, as fotos sem sentido. Tudo o que Maria fazia, de repente, tornou-se interessante para a conquistadora, que a seguia incessantemente. Grudou nela, atraindo o agrado da amiga. E pouco a pouco o fez, mas Maria era muito teimosa, mais do que as outras garotas. E tudo o que Lulu lhe pedia, ela se negava a dar. Mas um belo dia, Maria resolveu ceder, e logo, sem perceber, estava sob o feitiço da amabilidade de Lulu.

Maria começou a ser enfeitiçada também pelo choro, pelo drama, e depois, no limiar da conquista, pelo dengo. O tempo passava, e a “amizade” crescia. Lulu virou Luiza, cada dia mais satisfeita, tornava-se mais importante para Maria, que a cada dia, tinha que provar à amiga que a amava. Faça isso, faça aquilo. Faça esse absurdo, aquele, aquele outro.

O esforço para provar o seu amor era a cada dia maior. Luiza era insaciável, e Maria, apesar de se cansar, se esforçava para ser leal, enquanto a amiga, se enchia de satisfação por sua “amizade”. Maria tinha rugas de cansaço. Luiza, pequenos traços lindos e meigos proporcionados pelo amor de seus amigos, principalmente de sua melhor amiga.

Um dia, Maria resolveu pedir. Hmmm… Elas brigaram. Luiza dengou, e nada. Dramou. Nada! Chorou lágrimas sinceras. Ela sofreu. O direito de pedir era seu, e não a sua amiga falsa, fingida, traidora. “Quem ela acha que é?” pensava. Até que declarou em alta voz, em praça pública: “Você não vive sem mim, até onde você acha que vai com isso?”

Maria pensou sobre aquilo. “Pra onde eu vou? Ela é minha única amiga.” E, pelo medo de ficar só, voltou aos pés da querida amiga, pediu perdão e voltou à sua habitual escravidão. Ela estava subjugada à vontade da amiga. Mas um belo dia, Luiza foi embora. Achou trabalho em outra cidade, e sem pestanejar, atirou-se e zarpou. Maria ficou.

Hoje, Maria, com toda sua capacidade de amar, vive só, com medo de amar errado e sofrer novamente, como nas histórias que aconteceram em sua vida. Tornou-se rude, fria, às vezes perversa e contrariando a vontade das pessoas, apesar de ser esperta e inteligente. Enquanto Luiza, achou novos amigos, é amada por todos, por bem ou por mal. Drena amor para o seu ego insaciável, o buraco negro da alma.

“Quem te usa não é teu amigo” Ed René Kivitz